Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011

35 anos

A cantar. É obra. Ainda para mais a cantar mal. Deve ser por causa da boina, feito parvo. De qualquer maneira há pior. O Godinho e o Carvalho já chegaram aos quarenta anos de carreira. Seja como for saudemos esse grande vulto que dá pelo nome de Vitorino. Graças a ele e a outros, alguns dos quais citados, percebemos o porquê de andarmos na retaguarda da Europa.

O povo é soberano

O povo decidiu. E o povo atribuiu 58% da oleosidade à grande intelectual Leonor Pinhão. Jel, essa lêndea do antifascismo obteve 37% e o Alvim ficou-se por modestos 5%. Neste momento queremos saber qual o artista de renome internacional que tem o mais pragmático dos nomes. Havia muito por onde escolher, mas só quatro puderam ser contemplados. Quatro nomes maiores da música internacional.

Domingo, 25 de Setembro de 2011

Liberdade

A verdade que Dostoievski põe na boca do Grande inquisidor é que a humanidade nunca procurou a liberdade, nem nunca o fará. As religiões seculares dos tempos modernos dizem-nos que os seres humanos anseiam por ser livres; e é verdade que qualquer tipod e restrições os impacienta. No entanto, é raro que os indivíduos estimem a sua liberdade acima do conforto que o servilismo compra, e mais raro ainda que o faça um povo inteiro. À proposição de Rousseau, segundo a qual os homens nasciam livres, embora estivessem por toda a parte acorrentados, Joseph de Maistre opunha que pensar, pelo facto de umas quantas pessoas de vez em quando procurarem a liberdade, que todos os seres humanos a desejavam, era como pensar que, por existirem peixes-voadores, voar faz parte da natureza dos peixes.- John Gray, Sobre Humanos e outros animais, trad. de Miguel Serras Pereira, Lua de Papel, 2007

saldos



















A quem vem via Metalunderground: não é o material todo que consta da lista que se encontra no MU, mas serve apenas para dar uma indicação sobre o estado dos cds. Estão todos em óptimas condições como se pode ver.

poesia (XXVIII)

E por quê, senão a ti, sinto eu amor?
Estreito eu a mim, dia e noite em mim escondido,
O grande livro do mais sábio dos homens?
Na incerta luz da verdade única, certa,
Igual, na sua intensa mutabilidade, à luz
Em que te encontro, em que quietos nos sentamos,
No centro do nosso ser, por um momento,
A intensa transparência que tu trazes é paz.
Wallace Stevens, Notas para uma ficção suprema, trad. de Maria Andresen e Alexis Levitin, relógio d'Água, 2007

Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011

evocação do criminoso

Cinquenta anos de regime ditatorial, vinte mil mortos, dois milhões de exilados. Uma ditadura boazinha. Alguém imagina uma evocação do aniversário de Kadhafi, Assad, Kim Jong-Il ou outros ditadores menos aceitáveis? certo, o norte-coreano ainda é capaz de ter sorte, mas os outros, não sendo antifascistas não levam nada. A fórmula: ser antifascista. Se se puder ser anticapitalista, anticatólico e progressista melhor ainda. Tem-se direito a carta branca para matar e torturar e exilar, mas sempre em nome da humanidade.

poesia (XXVII)

Ardem as perdas. Já ardiam
na cabeça da minha mãe. Antes
ardeu a verdade e ardeu
também o meu pensamento. Agora
a minha paixão é a indiferença.
Escuto
na madeira dentes invisíveis.
Antonio Gamoneda, Ardem as Perdas, trad. Jorge Melícias, Quasi, 2004

Terça-feira, 20 de Setembro de 2011

Sejamos homenzinhos, sejamos mulherzinhas!

Acção.
Acepção.
Recepção.
Excepção.
Nocturno.
Efectivo.
Efectivamente.
Erecção.
Actividade.
Activo.
Activismo.
Acta.
Actor.
Acto.
...

poesia (XXVI) versão original

Ontem peguei aqui num livro sobre a estética do renascimento e caiu-me de lá um papel manuscrito com a versão original do poema anterior. Fica aqui.
Ela canta, pobre ceifeira, julgando que canta,
mas não canta nada de jeito, grande sacana,
e eu já estou com tal dor de cabeça que me parece que endoideço.
Ontem saí, bebi um copinho a mais, que diabo,
um homem não é de ferro e a vida não é só trabalho,
cheguei, deitei-me acordei cedo com este estafermo a cantarolar.
mas não haverá ninguém que a cale?
Calai-vos, ceifeiras, calai-vos, caralho!
Julgais que estou para vos aturar?
É domingo, um homem tem o direito de estar na cama até mais tarde
não se pode, é que não se pode mesmo!
porra para isto que não há metafísica nenhuma naquele trigo!
Ora bem, este poema acabou por ser abandonado na sua versão original por conselho de Almada Negreiros que terá dito ao poeta que estava a ser um bocadinho agressivo para com as ceifeiras, coitadas, que bem poucas alegrias tinham e cantar era uma delas. No entanto, a ideia da metafísica ficou e acabou por ser aproveitada para o Caeiro, mais tarde.

poesia (XXVI) ela canta, pobre ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegre e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ´stá pensando.
derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
Fernando Pessoa, Eduardo Lourenço- os poemas da minha vida, Público, 2006

Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011

fascismo

"Os movimentos fascistas foram interpretados por Ernst Nolte como respostas à ameaça bolchevique. Renzo de Felice pensa que o fascismo se define, antes de mais, como um modo particular de entrada na modernidade. Zeev Stternhell, que assinala que 'em França, o fascismo toma as suas origens, e os seus homens, tanto à esquerda como à direita e, frequentemente, muito mais à esquerda que á direita', assegura que a ideologia fascista estava, nos seus principais elementos, já constituída antes da guerra de 1914. A questão de saber se o fascismo representa uma volta 'militarista' e voluntariosa de uma ideologia contra-revolucionária, hierarquizante e antimoderna (Nolte), ou, pelo contrário, uma doutrina modernista e revolucionária, aberta à ideia de uma sociedade nova e sem ligação a um passado acabado (Furet), ou se resulta fundamentalmente de uma revisão do socialismo num sentido antimaterialista e anti-internacionalista (Sternhell), continua ainda hoje a ser discutida. A opinião mais comum é que o fascismo, como categoria geral, constitui um sistema misto, associando um socialismo purgado de materialismo a um nacionalismo jacobino, tendo como fundo a crise da classe média, a recordação da Grande Guerra e a explosão da modernidade.
na sua acepção mais restrita e, portanto, a menos contestada, a palavra emprega-se para, legitimamente, qualificar o Ventennio mussoliniano. Ora, o afscismo italiano é o grande ausente do Livro Negro. É que, em matéria de violência social e de repressão política, ele não tem comparação com os regimes totalitários. Actualmente existem números muito precisos sobre o balanço do regime fascista italiano neste domínio. Este balanço estabelece em nove as execuções entre 1922 e 1940 (na maioria, terroristas eslovenos), seguidas de dezassete outras durante os anos de guerra, de 1940 a 1943, o número total de prisioneiros políticos nunca ultrapassando alguns milhares. O fascismo italiano que Pietro Barcellona não hesitou em descrever como 'uma espécie de social-democracia autoritária', trouxe incontestavelmente restrições à liberdade. Mas estas não têm comparação com o terror totalitário. Raymond Aron já tinha sublinhado com vigor: 'o regime de Mussolini nunca foi totalitário: as universidades, os intelectuais nunca foram silenciados, mesmo se a sua liberdade de expressão foi restringida'. 'Entre Mussolini e Hitler, sublinha Jacques Willequet, existirá sempre o abismo que separa a prisão do campo de concentração'. Colocar a resistência ao totalitarismo nazi sob o signo do 'antifascismo', não passa, nestas condições, de impostura. 'Esta amálgama, declara Pierre Chaunu, faz parte da mentira comunista que consiste em opor a democracia ao fascismo, permitindo assim colocar-se como o sistema mais democrático, porque é o que mais se opõe ao fascismo. É a forma mais perfeita da mentira'."- Alain de Benoist, Comunismo e Nazismo- 25 reflexões sobre o totalitarismo no século XX (1917-1989), trad. de Júlio Sequeira, Hugin, 1999.

poesia (XXV)

os bichos da noite pararam
um momento só, na descida
e os rios de fogo chegaram
e as seivas pariram a vida.
Mário Cesariny, caderno mário cesariny, Assírio e Alvim, 2009

Domingo, 18 de Setembro de 2011

Ênquete (V)

A partir de hoje os nossos inquéritos (ênquetes) ao público serão feitos ao Domingo, no início da semana, portanto. O desta semana coloca-nos um problema pertinente, o cabelo oleoso. Apesar dos denodados esforços da Head and Shoulders e outras magníficas marcas que tudo fazem para melhorar o nossos aspecto há quem, por incúria, saudosismo, filosofia, recuse o cabelo seco e prefira vê-lo a escorrer. É um assunto deveras complexo e, se o CM elege os mais sexys, nós elegemos os mais oleosos. Cabe ao público leitor decidir quem, de entre alguns candidatos, se revela como o maior bastião de resistência ao H&S.

A cultura está na rua

É, e como de costume a comunicação social de causas (curiosamente sempre de merda) não podia deixar de comparecer. Parece que ontem, em Lisboa, um grupo de "activistas" culturais devidamente acompanhados pelos atributos circenses - leia-se batuques e pandeiretas - protestaram contra o estado actual da cultura. A deles, entenda-se. Inclusivamente, alguns estavam de luto. Ora, eu calculo que a indignação seja motivada pela razão do costume, a secagem da fonte, portanto. Em tempo de crise é legítimo que todos se sacrifiquem, mas estes palhaços entendem que devem ser excepções. A "cultura", em Portugal, tem sido um sorvedouro sistemático de subsídios enterrados em peças e filmes de merda que ninguém vê, a não ser os amigos, amigas, companheiros e nheiras (que esta gente não costuma ser casada - atavismo que os progressistas, naturalmente, repugnam), apesar de trazerem sempre primeiros prémios e menções honrosas dos prestigiados festivais de Brockenpissen, Villeneuf de la pisse e outros importantes centros culturais. Façam pela vida e desenrasquem-se. Porque a mama já devia ter acabado há muito. Quer dizer, corta-se na saúde, na educação, na defesa e no circo fica tudo na mesma?

poesia (XXIV) de santa maria

Ó milagre tamanho
o Rei se ter introduzido
na feminina forma de uma súbdita!
deus o fez
pois eleva a humildade sobre todas as coisas.
Ó tamanha felicidade existe
nesta forma,
pois o mal, que procedeu duma mulher
uma mulher de seguida purificou,
confeccionou todo o suavíssimo odor das virtudes
e o céu ornou mais
do que a terra primeiro turbou.
Hildegarda de Bingen, Flor Brilhante, trad. de Joaquim Félix de Carvalho e José Tolentino de Mendonça, Assírio e Alvim, 2004

Sábado, 17 de Setembro de 2011

E o aborto ortográfico?

Podem enfiá-lo onde muito bem sabemos. Resistir, desobedecer. pela identidade nacional.

Tédio Boys (XXIII)

Para aqueles que pensavam que esta causa estava esquecida fica aqui a certeza de que não só não está esquecida como ganha cada dia mais força. E dia 15 de Outubro a grande manifestação nacional pelo regresso dos Tédio Boys será certamente um momento de expressão do apreço dos portugueses por esta banda genial.

Fossem cristãos e eram corridos pela polícia...


... ou budistas, ou siques, ou pagãos, ou hindus ou outros quaisquer. Mas como são adeptos da religião da paz podem ocupar a via pública sem problemas. Afinal, todos os dias decorrem negócios importantes com o mundo islâmico e a Europa precisa de dinheiro e não de valores, essa coisa ultrapassada e incómoda.

poesia (XXIII) pied-de-nez

Lá anda a minha Dor às cambalhotas
No salão de vermelho atapetado-
Meu cetim de ternura engordurado,
Rendas da minha ânsia todas rotas...
O erro sempre a rir-me em destrambelho-
Falso mistério, mas que não se abrange...
De antigo armário que agoirento range,
Minhálma actual o esverdinhado espelho...
Chora em mim um palhaço às piruetas;
O meu castelo em Espanha, ei-lo vendido-
E, entretanto, foram de violetas,
Deram-me beijos sem os ter pedido...
Mas como sempre, ao fim - bandeiras pretas,
Tômbolas falsas, carrousel partido...
Mário de Sá-Carneiro, poemas completos, Planeta DeAgostini, 2006

Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011

Independência para a Madeira!

E o Alberto João e sequazes que se desenrasquem. E quem vota neles há trinta e tal anos. Mas a democracia é que é boa. Permite a alternância e tal.

Parabéns à Nato!

Pela Sharia como base da futura legislação na República (islâmica?) Líbia.

O JN acordou

E noticia hoje que um atentado causou três mortos e dezenas de feridos no Sul da Tailândia, tendo o mesmo ocorrido após a morte de dois muçulmanos numa mesquita. Portanto, o JN associa o atentado ao ocorrido na mesquita. E que dizer dos outros atentados que ocorrem diariamente na Tailândia, cometidos desde há anos por separatistas islâmicos e que têm passado despercebidos aos rigorosos jornalistas e editores do JN?

Esta não é a nossa Europa!

O novo cartaz da UDC suissa. Porque foi para evitar imagens destas que os nossos antepassados combateram. Por uma Europa verdadeira.

poesia (XXII) D. Afonso Henriques

Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!
Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A benção como espada,
A espada como benção!
Fernando Pessoa, Mensagem, Planeta DeAgostini, 2006

Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011

"Valores ocidentais"

"Quando o comunismo desmoronou, a maior parte dos russos não ansiavam por outra coisa que não fosse juntar-se 'ao Ocidente'. A sua recompensa foi serem tratados pior do que as potências do Eixo no fim da Segunda Guerra Mundial.
Até mesmo depois de rejeitar o maoísmo - tentativa de refazer um país nos termos de um modelo soviético, ou seja, ocidental -, a China continuou a demonstrar um desprezo imenso pela assessoria ocidental. Como resultado, a China tem sido celebrada pelo Ocidente como um paraíso de estabilidade e de bom governo.
O Japão foi o primeiro país não-ocidental a modernizar-se, mas continua a ser até hoje radicalmente não-ocidental. A fracção da população japonesa encarcerada é muito inferior à registada em qualquer outro país ocidental - cerca de 20 vezes menor do que a dos Estados Unidos. É óbvio que o Japão ainda não desposou os valores ocidentais."- John Gray, Sobre humanos e outros animais, Lua de Papel, 2007.

poesia (XXI) a filosofia prestes a ceder aos golpes da adversidade

Tenho assaz conservado o rosto enxuto
Contra as iras do fado omnipotente;
Assaz contigo, ó Sócrates na mente
À dor neguei das queixas o tributo.
Sinto engelhar-se da constância o fruto,
Cai no meu coração nova semente;
Já me não vale um ânimo inocente;
Gritos da Natureza! Eu vos escuto.
Jazer mudo entre as garras da Amergura,
De alma estóica aspirar à vã grandeza,
Quando orgulho não for, será loucura.
No espírito maior sempre há fraqueza,
E, abafada no horror da desventura,
Cede a filosofia à Natureza.
Bocage, Obras Escolhidas, RBA, 2005

Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011

Enquête (IV)

O povo decidiu, o povo é soberano. Novamente. Sem grandes surpresas a série mais marcante para o imaginário nacional é a lendária Zé gato que alcança 42% dos votos. Para o segundo lugar a luta foi renhida, mas Alentejo sem Lei levou a melhor sobre Alves dos Reis com 28% contra 21%. Em último, Chuva na Areia. Apesar de todo o talento do Caniço ficou-se pelos 7%.
Para esta semana a proposta é dupla e difícil. Há uns anos uma popular rádio nortenha elegeu os reis da música pimba. Hoje, o Correio da Manhã elege os mais sexy. Aqui não ficamos atrás e vamos eleger os mais viris e as mais provocantes intérpretes nacionais. Uma proposta temerária, uma escolha difícil. A palavra aos fãs.

E ainda o aborto ortográfico- boicote editorial

Comprei à volta de 140 livros até ao momento, no presente ano. Alguns, poucos, foram-me oferecidos. Alguns, poucos, em inglês e francês. Caso as editoras nacionais adoptem o aborto ortográfico não voltarei a comprar um único que seja e que surja com essa grafia abominável. Pode não ser muito, mas já são menos uns euritos que entram na facturação. E se muitos fizerem o mesmo então as editoras são capazes de sentir a decisão da adopção no ponto onde mais dói a qualquer empresa.

Três momentos

A revolução liberal, a república e a revolução abrilina. Três momentos definidores da destruição do carácter nacional. Fomos grandes quando fomos portugueses e soubemos enaltecer as virtudes nacionais que, não sendo exclusivamente nossas, são também parte da nossa identidade - o trabalho, a lealdade, a honra, a humildade. É verdade que sempre apresentámos defeitos, mas eram superados. Com a santíssima trindade da blasfémia revolucionária tivemos a chegada definitiva do pensamento estrangeiro sem ser estrangeiro, do pensamento maldigerido por estrangeirados que nos inculcaram a fascinação pelo que não era nosso e não era dos outros que julgávamos admirar, mas tão somente daqueles que nos diziam ter lá estado e visto como se fazia e agia lá fora. Os nossos estrangeirados eram híbridos desenraízados de qualquer lugar. E foi essa implantação de uma imagem idealizada que, não correspondendo à verdade, se nos foi fixando na retina que contribuiu também para o nosso declínio inevitável. Querer ser como lá fora no vício esquecendo a possibilidade da virtude - nossa e dos outros. O deslumbramento importado por terceiros fez de nós um povo de ruminantes. Sim, sempre aceitamos a inevitabilidade, a necessidade, mas essa aceitação fazia parte de nós e enquadrava-se nos nossos desígnios. A de hoje é a aceitação verdadeiramente bovina de quem não tem projecto ou identidade. Há uma nostalgia da contestação vinda de quem enferma do máximo conformismo. Onde quero então chegar? A todo o lado, mas para já ao aborto ortográfico. Porque me causa repugnância física ver imbecis que clamam por Abril e que estiveram lá e vivem lá e ouvem as canções da contestação e são rebeldes e incutem nos filhos e alunos a rebeldia e depois metem o rabo entre as pernas quando lhes acenam com eventuais consequências caso desrespeitem uma ordem iníqua e escrevem como nunca escreveram mas passarão a fazê-lo alegremente daqui em diante porque há contas a pagar e a coerência conheceu melhores dias. Ao menos que se mantenham calados porque, não o fazendo, ao que fazem chama-se cobardia e hipocrisia.

É assim que se escreve!

Acção, adopção, recepção, acto, actor, estupefacção, acção, reacção, reaccionário, etc, etc, etc. E não será um acordo merdoso e uns quantos zelotas ruminantes a alterar este facto.

poesia (XX) Ode a Fernando Pessoa

tu que tiveste o sonho de ser a voz de Portugal
tu foste de verdade a voz de Portugal
e não foste tu!
Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal.
De verdade e de feito só não foste tu.
A Portugal, a voz vem-lhe sempre depois da idade
e tu quiseste acertar-lhe a voz com a idade
e aqui erraste tu,
não a tua voz de portugal
não a idade que já era hoje.
Tu foste apenas o teu sonho de ser a voz de Portugal
o teu sonho de ti
o teu sonho dos portugueses
só sonhado por ti.
Tu sonhaste a continuação do sonho português
somados todos os séculos de Portugal
somados todos os vários sonhos portugueses
tu sonhaste a decifração final
do sonho de Portugal
e a vida que desperta depois do sonho
a vida que o sonho predisse.
Tu tiveste o sonho de ser a voz de Portugal
tu foste de verdade a voz de Portugal
e não foste tu!
Tu ficaste para depois
e Portugal também.
Tu levaste empunhada no teu sonho a bandeira de Portugal
vertical
sem pender pra nenhum lado
o que não é dado pra portugueses.
ninguém viu em ti, Fernando,
senão a pessoa que leva uma bandeira
e sem a justificação de ter havido festa.
Nesta nossa querida terra onde ninguém a ninguém admira
e todos a determinados idolatram.
Foi substituído Portugal pelo nacionalismo
que é maneira de acabar com partidos
e de ficar talvez o partido de Portugal
mas não ainda apenas Portugal!
Portugal fica para depois
e os portugueses também
como tu.
Almada Negreiros, poemas, Planeta DeAgostini, 2006

Terça-feira, 13 de Setembro de 2011

poesia (XIX)

Tudo foi dito antes que se dissesse.
O vento aflora vagamente a mess,
E deixa-a, porque breve se apagou.
Assim é tudo - nada. Bebe e esquece.
Na eterna sesta de não desejar
Deixa-te, bêbado e asceta, estar.
Lega o amor aos outros, que a beleza
Foi feita só para se contemplar.
Fernando Pessoa, quadras e canções de beber, Planeta DeAgostini, 2006

Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011

contra o acordo ortográfico

Contra. Mais do que nunca, agora que se inicia o novo ano lectivo e os mangas de alpaca andam satisfeitos e pedem a toda a gente para que se escreva de acordo com a nova norma e para que se diga aos alunos que é assim que devem fazer. Não, não é assim. E porque a identidade não se vende e porque neste país de lacaios onde qualquer ordem emanada de cima é imediatamente acatada pelos pequenos zelotas e contra esse espírito é que devemos remar, por aqui continuar-se-à a escrever como deve ser. Em casa, na escola, em todo o lado. E pqp o aborto ortográfico.

poesia (XVIII) versão original

ontem andava a ver de una papéis e encontrei este original do FP onde ele escreveu a versão original, a primeira do poema anterior:
Ninguém me perguntou quem eu era e eu
também não estou para me chatear.
Tenho um papel com o nome, a cédula
ou cumé quisto se chama e chega.
metafísicas já há em não pensar em nada
e não estou para pensar nisso.
Ando pela terra a caminhar e paro de vez em quando
para beber um copinho.
Vou ao rio, como um peixinho frito e é bem bom.
Porque isso da identidade e de saber
se o caminho está dentro de mim é uma grande porra.
Ora bem, parece que o poeta abandonou esta versão por sugestão de Almada Negreiros que lhe terá dito que o mesmo era um bocadinho simplório, mas não deixou de aproveitar aquela deixa da metafísica para o Caeiro brilhar.

poesia (XVIII)

Ninguém me disse quem eu era, e eu
A ninguém perguntei.
Vi-me vivendo sob um vasto céu
E senti uma lei.
A informe natureza, desdobrada
Em terra e rio e mar,
Deu-me um indício, como que uma estrada
Para eu caminhar.
Mas o caminho era para quem sou,
E tinha por seu fim
O saber que o caminho por que vou
Está dentro de mim.
Fernando Pessoa, poesia 1934-35 e não datada, Planeta DeAgostini, 2006

Domingo, 11 de Setembro de 2011

Santo Lenine

"Na Rússia foi consumado o triunfo sobre o poder terreno, e o reino dos santos surgiu tendo Lenine como santo principal.
E Lenine era um santo. Tinha todas as qualidades de um santo. Com toda a razão hoje veneram-no como tal. Porém, os santos que tentam matar por completo o poder fero da humanidade são demónios, tal como eram demónios os Puritanos que queriam arrancar as coloridas penas do tentilhão. Demónios!
O regime de santos de Lenine veio a ser horrível ao máximo. Contém mais não-deves do que qualquer outro regime de 'Besta' ou imperador. E não podia ser de outro modo. Todo o regime de santos terá de ser horrível. Porquê? Porque a natureza humana não é santa. A necessidade primordial, a velha necessidade adâmica que existe na alma do homem, é chegar a ser, tanto quanto possível, senhor, soberano, e alguém magnífico na sua esfera própria, na sua esfera privada. Qualquer galo pode eriçar as penas brilhantes e cantar no alto da sua estrumeira; na sua choupana e quando bebe o seu copo, qualquer camponês pode ser um glorioso tsar em miniatura. Qualquer camponês se consuma na velha ostentação, na magnificência dos nobres e no esplendor supremo do tsar. Com os seus próprios olhos pode ver o senhor supremo, alguém soberano e magnífico - que é deles, magnífico que é deles -: o tsar! E isto satisfez uma das mais profundas, vastas e poderosas necessidades do coração humano. O coração humano precisa e torna a precisar de esplendor, magnificência, orgulho, arrogância, glória e soberania. Talvez seja uma necessidade ainda maior do que a necessidade de amor, pelo menos maior do que a necessidade de pão."- D.H.Lawrence, Apocalipse, trad. de António Moura, Hiena, 1993

Viva a América!

Por H.P. Lovecraft. Por Flannery O'Connor. Por Shirley Jackson. E por mais uma carrada deles. Ah, e pela Coca-Cola, a melhor bebida do mundo. Por isso tudo hei-de gostar sempre da América. Por isso tudo, mas nunca por Nova Iorque que é aquilo que os que não gostam da América gostam na América.

o 11 de Setembro de acordo com os iluminados (ou ando a ouvir vozes mas não estou maluco)

a. o 11 de Setembro foi causado pela Mossad que na véspera avisou todos os judeus sionistas para não irem trabalhar no dia seguinte garantindo-lhes falsos atestados médicos passados pelo dr. Schlomo Davi, de modo a que ninguém desconfiasse.
b. o 11 de Setembro foi causado pela Mossad mas não disseram nada a ninguém e só se soube a verdade porque um vizinho do agente sénior envolvido no plano o ouviu a falar com a mulher no quintal lá de casa.
c. o 11 de Setembro foi causado pela CIA porque o Bush queria invadir o Iraque e fazer subir as acções e só se descobriu porque o organizador do plano se embebedou e contou tudo aos amigos.
d. o 11 de Setembro foi causado pelo ku klux klan revoltado contra o multiculturalismo representado pelas torres.
e. o 11 de Setembro foi um golpe de estado interno e o pentágono nunca foi atacado porque as imagens mostram que a relva á volta está intacta e os postes da electricidade não caíram. As ordens saíram do próprio Pentágono e Bush foi substituído por um autómato e está ainda hoje preso num subterrâneo em Manhattan com uma máscara de ferro e ao lado do Elvis.
f. o 11 de Setembro foi preparado pela NSA e os mísseis que derrubaram as torres foram disparados do Pentágono e tinham a forma de aviões para depois dizerem que tinham sido piratas do ar. E isto aconteceu porque um funcionário das torres descobrira que Elvis estava vivo em Manhattan e tinha sido raptado pela CIA por se opôr à guerra do Vietname e o funcionário descobriu quando ouviu um agente da CIA falar disso numa mercearia.
g. o 11 de Setembro foi causado pelos iluminate que mandaram aviões teleguiados e depois disseram que tinha sido a cientologia.
h. o 11 de Setembro nunca existiu e as imagens dos aviões que aparecem são falsas, filmadas com a mesma câmara que falsificou a ida do homem à lua, filmada em Hollywood.
i. o 11 de Setembro foi causado pelos serviços secretos portugueses para que mais tarde se realizasse a cimeira dos Açores, colocando assim o arquipélago nos roteiros turísticos mundiais.
j. o 11 de Setembro foi causado pelo poderoso lóbi da construção civil norte-americano para depois reconstruirem a zona.
k. o 11 de Setembro foi uma cabala imperialista para proporcionar uma agressão a Cuba via Guantánamo.
l. o 11 de Setembro foi causado por alienígenas fugidos de Roswell e revoltados contra a América por terem sido detidos injustamente.
m. o 11 de Setembro nunca existiu porque nesse ano houve um acerto de calendário na América e passou-se directamente do 10 para o 12 de Setembro.

poesia (XV-A) tange a tua flauta, pastor (primeira versão)

De uns papéis que encontrei debaixo da cama, e por acaso estava lá esta primeira versão:
Tange a tua flauta, pastor,
tange a tua flauta meu sacana,
que isto da vida ser dor não tem piada nenhuma.
Tange a tua flauta, pastor,
vá lá a tanger essa merda, catano,
ao menos uma vez no ano
haja alegria e animação e calor.
Tange lá essa porra, vá lá a ver isso,
que já corre o vinho, a febra e o chouriço.
Tange a tua flauta, pastor,
que a única certeza é haver chocolates pequena.
(Fernando Pessoa abandonaria esta primeira versão pela definitiva a conselho de Almada Negreiroa que lhe terá dito que a linguagem usada era um bocadinho brejeira e que o final tinha pouco nexo pois os leitores perguntar-se-iam de onde viria a inclusão da pequena e dos chocolates. mas a ideia ficou e, como sabemos, seria aproveitada pelo Caeiro).

poesia (XVII) o inverno passa, tardando

O Inverno passa, tardando
Em passar.
O ar, asperamente brando,
Faz 'sperar.
Se tudo quanto eu desejo
Fosse meu,
Nunca teria um ensejo
De ser eu.
O Inverno passa, mas dura.
Fernando Pessoa, poesia 1931-1933, Planeta DeAgostini, 2006

Sábado, 10 de Setembro de 2011

Onde pára a alma?

"Há muitas coisas cuja existência admitimos. Porém, qual será a sua natureza? Não sabemos. Todos admitirão que têm uma alma cujo comando nos impele ou nos afasta da acção. Contudo, o que é essa alma, guia e senhora do nosso eu? Ninguém poderá explicar-te onde ela se encontra. Alguém dirá que é espírito; outro, que é harmonia; outro ainda, que se trata de uma potência divina e uma parte de Deus; outro, a parte mais subtil do princípio vital; outro, uma potencialidade incorpórea; nem faltará quem a defina como sangue ou como calor. A tal ponto a alma não está em condições de explicar as outras coisas, que até ainda anda á procura de si mesma."- Séneca, Questões naturais, cit. por Gianfranco Ravasi, Breve História da Alma, Dom Quixote, 2011

sol

"No rosto humano há uma complicação infinita de desvios e escapatórias que respondem ao tráfico de espírito onde tudo assenta. Já não se imagina reduzir a vida à simplicidade do Sol. Não obstante, cada um de nós traz em si esta simplicidade: esquece-se dele por complicações de acaso, e depende da angústia avarenta do eu.
Imaginar um astro enredado nas tolices da condição humana! Chamarmos ao Sol 'meu caro senhor', diz muito sobre a diferença entre o universo e o homem.
Nada existe que faça esquecer-me de rir, mas os homens são muito pouco 'sol' e já não tenho entusiasmo para rir às gargalhadas da sua pequenez.
Quando o alicerce de todas as coisas enfraquece, é natural que a nossa busca se faça de olhar fixo e queiramos a simplicidade.
Depenados vivos! Tivemos penas! E não voámos."
Georges Bataille, O Ânus Solar (e outros textos do sol), trad.de Aníbal Fernandes, Assírio e Alvim, 2007.

Reformas e democracia

É o que o povo quer. O povo egípcio, pelo menos, a crer na imprensa lusitana e nessa caricatura de jornalismo que por cá se vai fazendo. Isto nos casos que noticiam o caso, porque outros nem deram conta, ocupados que estão com a repressão sionista pelo mundo fora. O certo é que a embaixada israelita no Cairo foi atacada e saqueada. Nada de especial, lá está. Afinal, os manifestantes gritavam por reformas e democracia e é sabido que estas não avançam no Egipto devido às cabalas tenebrosas urdidas pela entidade sionista. Fosse a embaixada egípcia em Israel a saqueada e aí teríamos indignação global, queima de bandeiras e reunião do Conselho de Segurança. Felizmente a primavera árabe continua. E o Verão e o Outono. E tudo aponta para que, no norte de África, se estabeleçam sólidas democracias ao estilo ocidental, que estabelecerão excelentes relações com a entidade sionista e os lacaios europeus. Qualquer saque, atentado, desvario momentâneo é apenas um pequeno excesso, absolutamente normal no decorrer destas revoluções que trouxeram a liberdade para milhões e milhões outrora subjugados pelo imperialismo sionista, responsável por todos os desmandos ocorridos no planeta, pelo 11 de Setembro, o aquecimento global e o fracasso da busca de seres inteligentes fora da Terra.

poesia (XVI) o catavento

Veio toda a noite dos lados da barra
Com chuvas o vento-
Um vento daquele que rasga e desgarra,
Veloz e violento.
E por toda a noite, ouvindo-o sofrendo,
Pensei no que sou-
Uma alma, sozinho, planeando , e sabendo
Que ignoro onde vou.
E por toda a noite na minha consciência
Inerte e desperta
Cruzavam-se a chuva e o vento, e a ciência
Duma alma deserta.
Raiou sossegado, desfeita a tormenta
O dia por fim,
E eu esqueci também a minha dor violenta,
Levada talvez pela longa tormenta
Para longe de mim.
Fernando Pessoa, Poesia 1926-1930, Planeta DeAgostini, 2006

Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011

felicidade

"A minha felicidade seria perfeita se não fosse a fugitiva angústia de lhe perscrutar o segredo, a fim de a encontrar amanhã e sempre. Mas talvez esteja a fazer confusão: a minha felicidade está nessa angústia. E volta-me, uma vez mais, a esperança de que amanhã bastará talvez a recordação."- Cesare Pavese, O Ofício de Viver, trad. Alfredo Amorim, Relógio d'Água, 2004.

poesia (XV) Clarim! os mortos!

Clarim! Os mortos!
Contra Miguel de Vasconcelos
Republicano!
Eis outra vez o estrangeiro
Em Portugal!
Grita, clarim! Ao Conde Andeiro!
Mas quando a hora do Limoeiro
E do punhal?
Clarim, contra quem deu à França
A pátria e a grei,
Grita com fogo de esperança,
Vozes que chamem
O Rei!
E ao abismo do futuro clama
Por quem enfim
Vier, régia lusitana chama!
pelo Rei que a Esperança chama,
Grita, clarim!
O Rei, a Lei, dias melhores...
Não sejam mais, nem já mais vezes
Os marinheiros portugueses
Guarda Vermelha dos Traidores!
hoje em que nada é português
Salvo a desgraça,
E em que um sopro maligno e soez
Por sobre as nossas almas passa;
Hoje em que manda quem serviu
Por condição,
E o próprio amor à Pátria é frio
Por Pátria ser um nome vão;
Hoje que, ruído o trono e a glória,
Só o Traidor
O louro e o ouro da vitória
Goza, vil como um vil actor;
Hoje uma voz que se levante
E diga, embora
Chore de ver, chorando cante,
Que vem nascendo além a Aurora,
Diga em palavras já tocadas
De outra Visão,
O Rei, e a Vinda das Espadas,
E o fim da Horda e da Traição.
Fernando Pessoa, Poesia 1918-1925, Planeta DeAgostini, 2006

Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011

The Mound

Magnífica parábola lovecraftiana sobre a decadência de um mundo, no caso o de K'n-yan. Magnífico ensinamento sobre o final das idades e das civilizações que pode ser lido, com muito proveito, para compreender o fim do nosso mundo ocidental. Encontra-se na colectânea The Loved Dead, por exemplo, da Wordsworth.

poesia (XIV) tange a tua flauta pastor

Tange a tua flauta, pastor. Esta tarde
Pertence à dor, à tua dor que em mim arde.
Tange por isso pastor, a tua flauta a tremer.
Tange, tange, para que eu me não sinta sofrer.
Leve, um vento antigo passa entre ti e mim.
Leve, o vento regressa, e a música está no fim.
Mas nunca haverá fim ou música em meu tormento.
Tange outra vez a flauta, pastor. Deixa o vento
Estar entre ti e mim outra vez, como a sombra triste
Que está na tua alma, e na minha alma, e não existe.
Fernando Pessoa, Poesia 1915-1917, Planeta De Agostini, 2006

Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011

Enquête (III)

O povo é soberano, o povo votou. O melhor actor de sempre é also starring, com 41% dos votos. Starring e co starring conseguiram 25% e guest starring arrecadou uns meritórios 9%.
Para esta semana a proposta de votação continua ligada ao ecrã, mas desta vez ao pequeno. Todos nós conhecemos a excelência da ficção televisiva nacional. Séries de grande relevo são ás dezenas, mas há algumas mais marcantes. Zé Gato (policial que inspirou a Balada de Hill Street), Alentejo Sem Lei (crónicas de uma terra a ferro e fogo), A Barbearia do Tonito (a hilariante história de um barbeiro que burlava os clientes), Alves dos Reis ( charme e sedução no Portugal dos anos vinte) e Chuva na Areia são as propostas. Poderá causar estranheza a inclusão desta última na votação, mas apesar de ser uma novela não podemos esquecer o contributo maior para a afirmação do Caniço como um nome grande das artes lusitanas. Se para o homem vulgar a navalhada na fonte da vida é a desgraça assumida, para Caniço foi a rampa de lançamento. Além disso, Chuva na Areia conta ainda com uma cena de antologia da produção nacional, a do mirone na praia. Esclarecimentos à parte pede-se agora o voto. A escolha será difícil, tamanha a qualidade das propostas.

Uma aliança (?) destinada ao fracasso

É a vida. Vão os jovens gueis manifestar a sua solidariedade com os muçulmanos vítimas da tenebrosa xenofobia e quase são agredidos. Tiveram a sorte de ver apenas os cartazes rasgados, mas será que já perceberam a ideia ou continuarão a persistir na estupidez?

À atenção da editora Antagonista (e das outras)

Se estiver interessada em editar um dicionário de conceitos sobre a obra e personalidade de H.P. Lovecraft é só dizer. Mas aviso já que só aceito negociar por grossa maquia.

Nobre Povo


De Jaime Nogueira Pinto. Esfera dos Livros, 2010. Passada a febre do centenário podemos eleger o melhor livro publicado sobre o assunto, por sinal este. Podem existir outras opiniões, mas estão erradas.

Radiohead- The Bends

Foi em 1995. O melhor álbum de pope-roque da década, pela melhor banda de pope-roque da década. E quem disser o contrário não percebe nada disto.

Liberalismo à portuguesa

Por que razão, sendo necessários cortes na despesa, o estado não deixa de financiar as escolas ditas privadas mas que apenas o são de nome?

Multiculturalismo

"... muita gente pergunta por que motivo os governos ocidentais autorizam representantes de minorias a manifestarem um ódio e uma agressividade que, noutros tempos, teria levado à prisão qualquer britânico ou francês. A resposta é simples: perda de identidade nacional, e do velho sentido de pertença que a acompanha. De acordo com a tese que vigora na maior parte dos países do Ocidente, somos sociedades multiculturais e todas as culturas devem ter liberdade total para se desenvolverem no nosso território, quer cumpram ou não as normas de conduta prevalecentes. O resultado é que o 'multiculturalismo' se transformou numa forma de apartheid. Toda e qualquer crítica dirigida a culturas minoritárias é censurada do debate público, e todo aquele que acaba de chegar percebe rapidamente que é possível residir num estado europeu como um antagonista e usufruir ao mesmo tempod e todos os direitos e privilégios que constituem a recompensa da cidadania. Isto explica o relativo fracasso do esforço feito no Reino Unido para atrair jovens das minorias imigrantes para a polícia e as forças armadas, ou seja para as profissões que simbolizam a nossa jurisdição territorial e os deveres que ela nos impõe.
Aqueles que manifestam dúvidas sobre a 'sociedade multicultural' não são racistas, como os seus adversários se apressam a chamar-lhes. procuram simplesmente lembrar que nós, no 'Ocidente', temos uma única cultura política, com o estado-nação como objecto de uma fidelidade comum, e uma concepção secular da lei, que torna a religião um assunto de família e de sociedade, mas não de estado. Quem remete toda a lei, toda a identidade social e toda a fidelidade para uma origem sagrada não pode integrar-se verdadeiramente na cultura política ocidental, na medida em que não reconhece o dever perante o estado e o amor ao país, as duas bases em que esta cultura assenta. O que não significa que a religião deva ser inteiramente excluída dos assuntos do estado nem que se tenha de concordar com a fanática expulsão da religião das instituições públicas, como aconteceu recentemente na América. Pelo contrário, a crença liberal de separação entre estado e sociedade civil permite que a religião desempenhe um papel nas instituições sociais, quando os cidadãos assim o desejam."- Roger Scruton, O Ocidente e o Resto, trd. de Vera Futscher Pereira, Guerra e Paz, 2006

poesia (XIII) complexidade

São horas, meu amor, de ter tédio de tudo...
A minha sensação desta Hora é um veludo...
Cortemos dele uma capa para o nosso saber
Que não vale a pena viver...
Vai alto, meu amor, o sol de termos tédio
Até ao nojo corporal de o saber tido...
Sei que vivo... Que horror! Tu és um mero remédio
Que tomo para ter vivido...
Que horror seres a mesma sempre, não te esmaga
O saber-te A Igual? És como as outras. Vaga
Dum mar de vagas sempre iguais é esta hora
De ti, ó parco Outrora...
Separemo-nos, mesmo se um de nós da ideia
Do outro, mero eco fique do outro ou reverbero...
Oh como o meu amar-te, ó meu amor, te odeia!
com que aversão te quero!
Fernando Pessoa, poesia 1902-1914, Planeta DeAgostini, 2006

Terça-feira, 6 de Setembro de 2011

Precisamente


História da Vida Privada em Portugal

Provavelmente o acontecimento editorial do ano. Acaba de sair o quarto e último volume desta obra colectiva dirigida por José Mattoso. Depois da Idade Média, da Idade Moderna e da Época Contemporânea eis que surgem os Nossos Dias. Hei-de dar aqui pormenores dos volumes à medida que os for lendo.

bocas Inúteis

O governo tem a intenção de aumentar o número de vagas nos lares da terceira idade. depois do aumento das vagas nas creches segue-se mais um milagre da multiplicação. Sempre que surgem propostas destas lembro-me de Octave Mirbeau e do seu conto Bocas Inúteis. É de ler, porque o futuro será assim. complementado com um cenário semelhante ao descrito em Soilent Green, esse filme que nos mostrou mais uma vez Charlton Heston em grande nível. Porque chegará o dia em que os velhos serão eliminados por razões humanitárias.

Nova Europa





Enquanto os europeus fingem que não se passa nada, avança o totalitarismo islâmico.

poesia (XII) somos do fado e nele

Somos do fado e nele; só falta ter
Distância de alma para nos sabermos
Seu lar e noutros rumos o movermos
p'la imanência dele no mover.
Estamos longe da exterior verdade
P'ra saber que não somos o que somos,
E no alvor do erro calor pomos,
Jovem o erro e nós em nossa idade.
Dupla mente nos falta para olhar,
Entre as coisas, nossa presença fora,
Medindo na diferença nosso estar
E, marionetas, nossos fios vendo.
Uma língua estranha em nós fala agora
O que, contra o real, vamos dizendo.
Fernando Pessoa, poesia inglesa, vol.I, Planeta DeAgostini, 2006

Segunda-feira, 5 de Setembro de 2011

A indignação dos comunas

Portanto, o primeiro-ministro diz, e bem, que não serão admitidos tumultos nas ruas cá do burgo. Os comunas partidários e sindicais ficam indignados. Acham que o governo ameaça o povo. Não ameaça, limita-se ao óbvio. Se é verdade que isto anda mau e o governo saqueia quanto pode não é menos certo que não vamos lá com tumultos nas ruas e destruição a torto e a direito, que só prejudica quem (ainda) trabalha.

Eu era mais pelo 28 de Maio

O excelso e erudito dr. Louçã acha que é preciso um novo 25 de Abril para a economia portuguesa. A mim, por tudo o que a revolução abrilina foi trazendo, parece-me que faz mais falta um novo 28 de Maio.

Um imposto sobre a estupidez é que era (e resolvia os problemas do país)

O bastonário da ordem dos médicos propõe um imposto sobre a comida rápida. Mais um. Ainda por cima sem riscos. Uns, apoiá-lo-ao por causa do fundamentalismo alimentar. Outros devido ao anti-americanismo primário que ainda associa esta comida ao imperialismo americano. Mas de valor, de valor, era um imposto sobre a estupidez. Com tanto imbecil que por aí se passeia era ´facturação garantida.

A maldição do Zé Gato

Zé Gato, a popular série televisiva portuguesa que estreou em 1979 é, ainda hoje, um marco na produção nacional pela sua qualidade e ousadia no tratamento de certos temas - por exemplo, Zé Gato, personagem principal, vivia amigado com uma fulana. No entanto, a série é também conhecida por outras razões. Nos anos setenta ficaram célebres as alusões sobrenaturais à envolvência de certos filmes e produções. Talvez a mais conhecida seja O Exorcista, filme ao qual se dizia estarem associadas mortes estranhas e fenómenos bizarros. Relativamente á produção nacional existem lendas diversas relativas a ocorrências inrxplicáveis, desde o vinho que não parava de jorrar mesmo depois do depósito vazio, ruídos de fundo na telefonia, vultos no pátio, etc. Em Zé Gato terá sucedido algo semelhante. Luís Lello, o "Matrículas" da série, morre num acidente de viação. Foi em 1980 e tinha apenas 33 anos. Era o informador de Zé Gato. António Assunção morre em 1996 de ataque cardíaco em Nova Iorque. Era o chefe de Zé Gato. Canto e Castro morre em sua casa em 2005. Era o mentor de Zé Gato. Sucessão natural de acontecimentos ou fenómenos inexplicáveis? apenas os investigadores do oculto poderão dar a resposta.

poesia

"Na minha opinião, um poema opõe-se a uma obra de ciência por ter como seu objectivo imediato o prazer e não a verdade; opõe-se ao romance, por ter por seu objecto um prazer indefinido em vez de definido, sendo poema apenas e quando este objectivo é alcançado. O romance apresenta imagens perceptíveis com sensações definidas, e a poesia com sensações indefinidas, para cujo fim a música é uma parte essencial, dado que a nossa concepção mais indefinida é a compreensão de um som doce. A música, quando combinada com uma ideia aprazível, é poesia; a música, sem a ideia, é apenas música; a ideia, sem a música, é prosa por causa da sua própria qualidade de definição.
O que é que se queria dizer com a invectiva contra aquele que não tinha música na sua alma?"- Edgar Allan Poe, Poética (textos teóricos), trad. de Helena Barbas, FCG, 2004

poesia (XI) Ai, Margarida (ou queres fiado? toma!)

Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
-Tirava os brincos do prego,
Casava c um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
- (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
- Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.
Fernando Pessoa, Poesia de Álvaro de Campos- vol.II, Planeta DeAgostini, 2006

Domingo, 4 de Setembro de 2011

A imprensa portuguesa (e a comunicação social em geral)

Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.
Fernando Pessoa, Poesia de Álvaro de Campos, Planeta DeAgostini, 2006

poesia(X)- A Praça da Figueira da manhã

A Praça da Figueira de manhã,
Quando o dia é de sol (como acontece
Sempre em Lisboa), nunca em mim esquece,
Embora seja uma memória vã.
Há tanta coisa mais interessante
Que aquele lugar lógico e plebeu,
Mas amo aquilo, mesmo aqui... Sei eu
Porque o amo? Não importa nada. Adiante...
Isto de sensações só vale a pena
Se a gente não se põe a olhar para elas.
Nenhuma delas em mim é serena...
De resto, nada em mim é certo e está
De acordo comigo próprio. As horas belas
São as dos outros, ou as que não há.
Fernando Pessoa, Poesia de Álvaro de Campos, Planeta DeAgostini, 2006

Sábado, 3 de Setembro de 2011

Tédio Boys (IX)

nono dia dessa grande vaga de fundo que agita a sociedade portuguesa e exige o regresso dos Tédio Boys!

É deixá-los morrer todos que sempre fica mais barato!

Pelo que se lê na imprensa parece que o ministério da saúde quer reduzir o número de transplantes. Para poupar. Diz-se também que há a possibilidade de acabar com o passe social para os idosos e os jovens. Para poupar. Certo. Os velhos não têm nada que andar de transportes públicos, fiquem mas é em casa a ver televisão ou a jogar às cartas. Os jovens podem muito bem andar à boleia ou de bicicleta que só lhes faz bem. E no caso dos transplantados há que ir mais longe, poupar também na hemodiálise e acabar com a vacinação obrigatória, por exemplo. Assim é capaz de se poupar mais qualquer coisa, nos tratamentos e nas reformas que deixam de se pagar a quem entretanto for morrendo. Mas, obviamente, há que cortar também com o subsídio de funeral, um luxo que já não traz qualquer benefício ao principal interveniente e só serve para aumentar o défice. Porque, acima de tudo, há que poupar.

Há setenta e dois anos...

... a Grã-Bretanha e a França imperialistas declaravam guerra à Alemanha nacional-socialista e iniciavam assim a segunda guerra mundial.

Avante

No fim de semana em que os comunistas portugueses celebram (o quê?) há que recordar os mais de cem milhões de mortos às mãos do comunismo ateu.

poesia (IX) se hás-de ser o que choras

Se hás-de ser o que choras
Ter que ser, não o chores.
Se toda a mole imensa
Do mundo ser-te-á noite,
Aproveita este breve
Dia, e sem choro ou cura
Goza-o, contente por viveres
O pouco que te é dado.
Fernando Pessoa, poesia de Ricardo Reis, Planeta DeAgostini, 2006

Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011

Humanidade (no dia em que começa a festa do comunismo ateu)

Falaram-me em homens, em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si,
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.
Fernando Pessoa, poesia de Alberto Caeiro, Planeta DeAgostini, 2006

poesia (VIII) passa uma borboleta por diante de mim

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
Fernando Pessoa, poemas de Alberto Caeiro, Planeta DeAgostini, 2006

Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011

É favor não sair de casa

Hoje li no fórum nacionalista uma notícia retirada do Correio da Manhã que referia a vandalização da campa de Salazar, mais concretamente de um memorial contíguo à mesma. A notícia informava também que, perante isto, o presidente da câmara de Santa Comba Dão era a favor da retirada do memorial. Para evitar incidentes futuros.
À noite, numa olhadela pelo telejornal da sic, deparei-me com a notícia de um carjáquingue a um indivíduo em Telheiras. Perante isto, um senhor da PSP aconselhava as pessoas da zona a verificarem a iluminação pública, a cortarem umas ramagens das árvores que fazem mais sombra e não sei se mais alguma coisa.
Estes são dois exemplos de uma mentalidade que se foi instalando e de uma anormalidade que se quer fazer passar por normal. No primeiro caso, em vez de se combater o vandalismo retira-se o memorial. No segundo atribui-se ao cidadão uma função preventiva que não lhe cabe. Mas isto ocorre cada vez mais. Aconselham-nos a fechar a porta à chave quando estamos em casa, na nossa casa, veja-se. Aconselham-nos a não sair com determinados objectos, a evitar determinadas zonas, a não deixar não sei o quê no carro, a evitar falar disto e daquilo e tudo isso é aceite como normal. Em vez de se combater eficazmente a crimanalidade, em vez de se garantir a segurança e a liberdade de circulação dos cidadãos faz-se o oposto. Faz-se o possível para criar uma cultura de medo, de conformismo, de aceitação, de resignação. E, é certo e sabido, que esta docilidade paralela a uma ilusória preocupação com o bem estar de cada um acaba por se expandir para outros planos da vida social. Aceitamos ser reféns em casa, no bairro, na cidade. A partir daí aceitamos aumentos de impostos, desemprego, etc. Tudo e mais alguma coisa, sempre em nome de interesses maiores. Pelo meio, os criminosos de trazer por casa e os outros, mais sérios, vão fazendo o seu jogo e impondo a sua ordem. E põe-se a pergunta: um estado que não garante a segurança dos cidadãos serve para quê?

Chesterton e a eurábia

"Fruto da dimitude voluntária, a Eurábia caracteriza, pois, a atitude e as opções geopolíticas dos intelectuais e dos decisores ocidentais, em particular dos dirigentes europeus, que, por medo do inimigo totalitário de amanhã, o islamismo e o terceiro-mundismo revanchista, mas também pelos compromissos político-económicos que assumiram com os países islâmicos fornecedores de petróleo e de mão-de-obra, se dedicam desde há vários anos a precaver a Europa de potenciais conflitos por meio de uma política de auto-submissão e de capitulação ex-ante relativamente ao mundo árabe islâmico. Numa célebre obra de contornos premonitórios, A estalagem volante, o escritor inglês G.K.Chesterton antecipou o cenário eurabiano da nova dimitude europeia, descrevendo uma Grã-Bretanha pacificamente conquistada pelo colonialismo islâmico, com a capital transformada em Londonistão; Chesterton caracterizava este processo de descristianização e islamização por meio do termo 'crislão', um cenário que era na altura de ficção científica, mas que se tornou, segundo Bat Ye'Or, uma realidade crescente em diversas capitais europeias."- Alexandre del Valle, A Islamização da Europa, Civilização, 2009

Poesia (VII) Sobre a morte

Quando penso que os dias a passar
Em passos breves, mas em peso sentidos,
Minh'alma levam a espaços temidos
E a juventude à morte vai dar,
Por estranho e triste que me pareça
Que em breve (ora vivo) eu vá morrer,
Vaga, incerta dor que pessa em meu ser
Faz com que a mente em pavor desfaleça.
Contudo mesmo em raiva, choro e pena
Cada instante é consolo ao coração
E com riso acolherei cada gemido:
Do fundo desespero a esp'rança acena.
Na morte não vejo a libertação-
É melhor o mau que o desconhecido.
Fernando Pessoa, Poesia de Alexander Search, Planeta deAgostini, 2007