Domingo, 31 de Julho de 2011

Novilíngua

Se os americanos matam um qualquer terrorista em qualquer parte do mundo estamos perante um assassinato. Se um terrorista mata um ocidental em qualquer parte do mundo estamos perante uma execução. De resto, terroristas já quase não existem. Excepção feita aos de extrema-direita agora são insurgentes, insurrectos ou combatentes. Um muçulmano que se faça explodir ou cometa um atentado não é um verdadeiro muçulmano. Mesmo que fosse, o seu acto seria catalogado como resistência. Até porque, lá está, estamos perante um revoltoso. No caso de um acto similar praticado por um cristão, budista, judeu ou etc já não restam dúvidas: trata-se efectivamente de um atentado.
Uma mulherzinha que esteja meia hora em oração em frente a uma clínica que realize abortos é uma fanática. Aquelas que realizam os ditos exercem o direito à escolha. No regime nazi a eliminação de deficientes é Genocídio. No mundo moderno é Eutanásia. O europeu que proclama o orgulho na sua herança é xenófobo. O não-europeu que defende algo semelhante é orgulhoso da tradição. A mesma tradição na Europa é uma coisa retrógrada. No resto do mundo é exotismo. O jovem que se afirma de direita é um reaccionário ou um fascista. O inútil que nada faz além de tocar batuque, berrar um slogan idiota ou emporcalhar paredes ou praças depois de nelas acampar é um activista. etc, etc, etc. À política cola-se o rótulo da degradação e do oportunismo. À manipulação disfarçada e à falta de vergonha e de carácter chama-se jornalismo.

As Vantagens do Pessimismo


Já tínhamos em português a Breve História da Filosofia Moderna, o Guia de Filosofia para Pessoas Inteligentes e O Ocidente e o Resto, editados pela Guerra e Paz e mui estimáveis e estimulantes. Agora surgiu, há coisa de dois meses, este ensaio que representa um momento de lucidez numa Europa dominada pela imbecilidade. Desmontando as falácias em que assenta um certo "pensamento" contemporâneo, Scruton oferece-nos um panorama da desgraça mental em que vegetamos. A mim agrada-me particularmente a crítica da falácia do espírito em movimento e o vazio que a assiste no mundo artístico, esse maravilhoso meio feito de nada mas com pretensões a alguma coisa, a muito e a tudo o mais com gente que nem sequer A Bola consegue compreender, quanto mais Hegel. Embora seja o próprio autor a revelar não esperar mudanças geradas por este ensaio é obrigatório lê-lo, pois com certeza. Embora quem o faça se inclua naquele pequeno grupo que foge à imbecilidade que atravessa a Europa. Grande serviço prestado pela Quetzal, sim senhor.

Lucros

Ontem fui ao Jumbo. Reparei que agora, na secção das frutas, é o cliente que faz a pesagem e a embalagem. Depois das caixas self-service temos mais uma inovação, portanto. Mas sempre a pensar no cliente. Calculo que os funcionários que estavam encarregados dessa tarefa estão a fazer algo de novo em nosso benefício, tal como acontece no Ikea onde o comprador arruma os tabuleiros para eles terem mais tempo para nos servir. Pelo menos é o que dizem. Que estas medidas se destinem a reduzir pessoal e a aumentar os lucros é coisa que nem lhes passa pela cabeça, certamente. Afinal, até praticam comércio justo e apoiam a produção nacional.

Sábado, 30 de Julho de 2011

Riccardo Marchi

Hoje, em entrevista, na Notícias Sábado, a revista que acompanha o DN e o JN. Um momento de lucidez no meio da histeria e da desinformação geradas pelo tarado norueguês. E uma reflexão breve e certeira para o facto da direita nacionalista não passar da cepa torta em Portugal.

Sexta-feira, 29 de Julho de 2011

E uma reflexão profunda

Num país em que os blogues sobre futebol e os pasquins desportivos têm uma audiência muitíssimo maior do que os congéneres generalistas ou eruditos é de esperar o quê?

Os maluquinhos das conspirações

O massacre levado a cabo na Noruega pelo tarado doentio simpatizante da maçonaria veio, novamente, trazer ao de cima as "teorias" delirantes dos maluquinhos das conspirações. Segundo estes infelizes o homem não pôde ter actuado sozinho: foi manipulado. Por quem? pelo adversário óbvio, o judeu. Percorram-se fóruns de "debate" daquilo que se considera "extrema-direita" e lá temos a recorrência da conspiração. A culpa foi de Israel e da Mossad. Fraca argumentação e pior imaginação, além da clássica demonstração de esquizofrenia. Por um lado, os sionistas dominam o mundo e arredores. Por outro, coitados, são tão estúpidos que mal acabam de praticar as suas aleivosias já toda a gente no universo dos iluminados sabe que a culpa é deles. Foi assim no ataque às torres gémeas (recordemos que os maluquinhos defendem que foram eles os culpados tendo avisado os judeus de véspera para que não fossem trabalhar - coisa em que ninguém repararia) e foi assim agora. Parece que na véspera o ministro dos estrangeiros palestiniano tinha ido à Noruega e vai daí os sionistas, rápidos como relâmpagos, atacaram a Noruega à bomba. Mas não contavam, mais uma vez, com a perspicácia dos maluquinhos.
Na génese disto tudo encontra-se uma psicologia básica. O ser humano gosta de saber, mas perde a capacidade de descobrir, a curiosidade com o tempo, á excepção de alguns. Claro que a descoberta implica trabalho e inteligência, atributos que não estão ao alcance de todos. Mas neste mundo de anonimatos conjugado com a necessidade do aparecimento, a conspiração surge necessariamente. Incapazes de se darem a conhecer por algo efectivamente válido, os maluquinhos da conspiração investem contra o mundo. Os que os rodeiam são ignorantes, manipulados pelo inimigo (o sionista, o judeu, a comunicação social, o fascista, o xenófobo, etc). Neste sentido, sejam eles de extrema-direita ou esquerda (estre aspas) são iguais na mesma incapacidade de perceber o mundo e a natureza das coisas. Essa incapacidade de percepcionar a realidade leva-os à ficção e ao delírio. Na posse da verdade repelem a sua insignificância e transferem-na para o outro. Porque o maluquinho da conspiração, agora na posse do segredo é o verdadeiro iluminado. Só ele tem acesso ao conhecimento. Gnóstico dos nossos dias sem saber o que é a gnose, o maluquinho das conspirações move-se num universo bipolar, ajustável à sua fraca personalidade. Os outros são burros porque não vêem e aceitam acriticamente, ele é o sábio, o que vê mais longe e identifica os símbolos ocultos. Familiar dos astrólogos, dos curandeiros e de tantas legiões de charlatães, os maluquinhos das conspirações são incapazes de perceber o óbvio, o evidente. Há sempre mais. Aqui não entra a navalha de Occam e a simplicidade científica. Aqui é o lugar da alucinação. Aparentemente inofensivo, o maluquinho da conspiração pode tornar-se perigoso quando, como no caso do tarado doentio norueguês, avança para o confronto com os ignaros e deixa discípulos e admiradores. Porque, convenhamos, entre as extremas, sejam elas direitas ou esquerdas, há muitos que secretamente admiram o tarado: por uma razão simples, ter feito o que alguns sonham igualmente fazer aos que não se enquadram no seu maniqueísmo patológico.

Big Bang (II)

Está aqui o boneco.

Big Bang

De Simon Singh. Neste volume de quase seiscentas páginas o autor faz a história da evolução da nossa compreensão do cosmos. Desde os gregos aos nossos dias passando por Copérnico, Brahe e outros que tais. Átomos, efeitos, experiências, sacrifícios, etc, anda tudo por aqui. Livro de uma clareza impressionante, é óptimo para leitores não especializados no assunto e que queiram ter uma perspectiva sólida acerca das grandes questões da cosmologia e não só. Editado pela Gradiva no ano passado, na sua excelente colecção Ciência Aberta. Só o li agora, que isto de ser um erudito tremendo não deixa tempo para tudo, mas valeu bem a espera. Revisão da matéria feita, conhecimentos consolidados. Se a divulgação científica fosse toda assim o mundo era um lugar com menos ignorantes.

Quinta-feira, 28 de Julho de 2011

A persistência da nobreza

Primeiro foi um videozinho muito lindo sobre o glorioso passado português quando os finlandeses ameaçaram fechar a torneira para os estróinas lusitanos. Depois veio a indignação nacional e o bem merecido manguito a propósito da descida do rating pela Moody's. E um novo vídeo muito lindo sobre o glorioso passado português. Que se trabalhe e se produza não é preciso. necessária é a indignação parola quando alguém nos diz que as coisas não andam a funcionar como deviam. Aí, alto e pára o baile que ninguém nos pode acusar de tal. Que isto seja uma esterqueira e toda a gente o diga nos cafés, caixas de comentários e fóruns internéticos é uma coisa, mas que sejam estrangeiros (ainda por cima com nível de vida superior) não pode ser. Gera-se logo a indignação indescritível, até porque esta é um direito quase constitucionalmente consagrado. De resto, em Portugal sabe-se que quem tem dinheiro é porque o herdou ou arranjou através de negócios escuros. Por isso, os finlandeses e outros que gozam das virtudes do conforto e etc não o conseguiram pelo suor do rosto: herdaram-no ou foram-no arranjando a vender droga. O patriotismo saloio que se verificou a propósito do episódio Moody's mostra bem a persistência da nobreza nacional: sem cheta mas com peneiras para dar e vender. Porque o que conta não é o presente, mas o passado gloriosodo qual as gerações actuais nem sequer são responsáveis. Termos sido grandes isentar-nos-ia, então, de trabalhar daí em diante. Como um qualquer nobre caído em desgraça que se agarrasse ao título que já nada vale. De resto, que somos nós senão um país de nobres ressentidos? quando um palerma qualquer da geração palermóide (mais conhecida por "à rasca") exibe na televisão as credenciais de "doutor" o que é que está a fazer, senão a mostrar ao mundo o título de nobreza que o isenta de trabalhar "abaixo das suas competências?" .

Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

Bem haja

A quem já enviou saudações pelo regresso deste portento cultural. Até ao momento foram mais de oitocentos cidadãos num movimento espontâneo ímpar, talvez com paralelo apenas nos sobressaltos cívicos protagonizados pelos doutores Nobre e Alegre. Já agora, como é que se responde aos comentários que eu já não me lembro?

Nas Trevas Exteriores


De servos inúteis está esta obra cheia. E, apesar de lançados nas trevas exteriores, são eles que se reproduzem, que sobrevivem e se arrastam pela terra. A evolução pela selecção natural coroou-os vencedores.
Nas Trevas Exteriores, segundo livro de Cormac McCarthy, foi escrito em 1968 e chega agora a Portugal em mais uma grande tradução de Paulo Faria. E já havia aqui muito do que haveria de fazer de McCarthy o mais excepcional escritor americano da actualidade. As estradas, o nomadismo, a inquietação, os sobressaltos e o negrume da existência. As coisas não são simpáticas, as pessoas são intratáveis, as conversas são desconfortáveis mas é com isso que temos de viver. E, no fim (ou pelo meio e pelo início), são aqueles que vão fazendo algo pelos outros os mais castigados pela mão dos servos, ao serviço de forças que os ultrapassam - talvez. Oitava obra de McCarthy traduzida e editada na Relógio d'Água. Grande serviço, grande autor e grande livro. Mas eu sou suspeito - desde que li Filho de Deus, há uma série de anos e de forma ocasional, fiquei um incondicional deste autor.

Regresso

A pedido de inúmeros populares. Foram centenas, as cartas. De gente de todelado que se habituou a ver aqui uma referência de qualidade e erudição. Para mais, soubemos que a Cidade era leitura obrigatória em muitas universidades por esse mundo fora. Por isso, regressamos para prestar este serviço à cultura e à humanidade em geral. E com uma equipa reforçada de mais de vinte profissionais que darão corpo a este projecto de uma erudição inigualável.

Segunda-feira, 25 de Julho de 2011

Viva!

Isto ainda vai demorar um tempo. Já nem sei como é que se responde a comentários. Há que rever toda a matéria tecnológica.