Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Modinhas estúpidas (II)- chefs

Antigamente havia cozinheiros. Quando havia homens havia cozinheiros, com aqueles chapéus altos a lembrarem os das enfermeiras que aparecem nas imagens dos hospitais russos. Quando muito havia chefes, escrito em português. Bons tempos em que podíamos confiar na sabedoria do chefe Silva ou na modéstia do cozinheiro Michel, o que de mais próximo havia da alta cozinha internacional cá pela terra. Hoje, o tempo é o dos chefs, essa praga da modernidade. Com os seus barretinhos apaneleirados (à excepção daquele que anda sempre com o turbante feito parvo), com as suas fardazinhas ridículas sempre impecáveis. Porque, antigamente, os cozinheiros usavam aventais sóbrios e perfeitamente adaptados à função que exerciam. Hoje, é tudo uma farsa televisiva, não se sujam, não ostentam uma nódoa, não mostram sangue, tripas, vísceras, espinhas ao vivo, é tudo assepticamente triste em cozinhas despersonalizadas - há quem considere isso minimalista, palavra que serve para designar a falta de imaginação criativa. Hoje é moda ser-se "chef", é moda cozinhar, sobretudo merdices que são catalogadas como alta cozinha ou comida requintada ou seja lá o que for. O resultado final é sempre o mesmo: umas amostras ridiculamente pequenas que devem servir para tudo menos para comer. Estes gajos que se dizem "chefs" deviam ser obrigados a estágio na lendária Casa Avião, de Castelo Branco, nos bons tempos em que o cheiro a escabeche se fazia sentir em toda a Devesa. Sim, os petiscos podiam ter alguns dias, mas ao menos eram comidos por gente que não ficava menos rija por causa disso - antes pelo contrário.

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