Domingo, 11 de Dezembro de 2011

Justiça (ou, talvez os juízes e os governantes aprendessem qualquer coisa lendo Fernão Lopes)

"Leixados os modos e definições de justiça que, per desvairadas guisas, muitos em seus livros escrevem, somente daquela pera que o real poderio foi estabelecido (que é por serem os maus castigados e os bons viverem em paz) é nossa entençom, neste prólogo, mui curtamente falar, nom como buscador de novas razões, per própria invençom achadas, mas como ajuntador, em breve molho, dos ditos de alguns que nos prougueram.
[Esta virtude é mui necessária ao rei, e isso mesmo aos seus sujeitos, porque, havendo no rei virtude de justiça, fará leis per que todos vivam direitamente e em paz; e os seus sujeitos, sendo justos, cumprirão as leis que ele puser; e, cumprindo-as, nom farão cousa injusta contra nenhum. E tal virtude como esta pode cada um ganhar per obra de bom entendimento e, às vezes, nacem alguns assi naturalmente a ela dispostos que com grande zelo a executam, posto que a alguns vícios sejam inclinados.
A razom por que esta virtude é necessária nos súbditos é por cumprirem as leis do príncipe, que sempre devem de ser ordenadas pera todo bem; e quem tais leis cumprir, sempre bem obrará, ca as leis son regra do que os sujeitos hão-de fazer [...]. E por isso a justiça é muito necessária, assi no povo como no rei, porque sem ela nenhuma cidade nem reino pode estar em assessego.
Ora, se a virtude da justiça é necessária ao povo, muito mais o é ao rei, porque, se a lei é regra do que se há-de fazer, muito mais o deve ser o rei que a põe, e o juiz que a há-de encaminhar]."- Fernão Lopes, Crónicas de Fernão Lopes, Ulisseia, 2000

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