Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

A doença do século

"Que vida, que criação, que acção pode haver entre pessoas que enfermam de ironia, essa velha doença que se espalha cada vez mais? Estamo-nos a contagiar sem o saber. É como a mordedura de um vampiro. O que foi mordido converte-se por sua vez em vampiro, os lábios incham, o rosto empalidece e da boca surgem grandes caninos.
Assim se manifesta a epidemia da ironia. E como não havíamos de nos contagiar, quando acabamos de viver o horripilante século XIX, especialmente na Rússia? Esse século a que um poeta chamou com razão 'um fogo sem chama'; esse reluzente e pálido século que colocou sobre o rosto do indivíduo vivo o reluzente manto artificial da mecânica, do positivismo e do materialismo económico e que enterrou a voz humana no ruído das máquinas; esse século metálico, no decorrer do qual 'a caixa metálica' (o comboio) conseguiu ultrapassar a 'insuperável troika' que, como disse Gleb Uspénskiy, foi para Gógol o símbolo da Rússia.
Como podia essa epidemia poupar-nos, quando o silvo das locomotoras se fez mais potente que a nossa voz; quando na intenção de apagar a máquina com a nossa própria voz, esta falhou e nós gritámos até exalar a alma (...) e quando agora já não somos capazes de uma crítica construtiva nem de um elogio construtivo, mas sim, apenas de um riso destruidor e aniquilador?"- Aleksandr Blok, Da Ironia, tradução de Dímiter Ánguelov, Pergaminho, 1995

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