A verdade que Dostoievski põe na boca do Grande inquisidor é que a humanidade nunca procurou a liberdade, nem nunca o fará. As religiões seculares dos tempos modernos dizem-nos que os seres humanos anseiam por ser livres; e é verdade que qualquer tipod e restrições os impacienta. No entanto, é raro que os indivíduos estimem a sua liberdade acima do conforto que o servilismo compra, e mais raro ainda que o faça um povo inteiro. À proposição de Rousseau, segundo a qual os homens nasciam livres, embora estivessem por toda a parte acorrentados, Joseph de Maistre opunha que pensar, pelo facto de umas quantas pessoas de vez em quando procurarem a liberdade, que todos os seres humanos a desejavam, era como pensar que, por existirem peixes-voadores, voar faz parte da natureza dos peixes.- John Gray, Sobre Humanos e outros animais, trad. de Miguel Serras Pereira, Lua de Papel, 2007
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